O
cheiro torrado do café mistura-se com a luz amarela do candeeiro, saber
que o vou beber desperta-me mais do que quando o bebo. As crianças,
mais sérias do que eu, brincam no quarto, mergulham numa encenação sem
hesitar. Fecho a porta, folheio uma mão-cheia de livros, as vozes passam
pela porta empenada, não vivo num tanque, no entanto, dentro da minha
cabeça, quantas vezes não me enfio numa barricada que me esconde da
alegria. Os pequenos nunca se aborrecem quando estão juntos. Se me
entusiasmo tanto com alguém como eles entre si, pareço idiota,
desequilibrado. A minha begónia tem as folhas mortas penduradas,
esqueço-me de a arranjar, gosto do ar bravio que dá ao vaso como lianas
que pendem em seu redor. O que precisaria de fazer para despontar tal
entusiasmo? Não me lembro onde li que as coisas mais sólidas que
construimos são as prisões e mesmo os caixões são de mogno para ver se
nos aguentam mais tempo. Onde quer que vá tenho de me pôr a escavar para
encontrar alguma coisa.
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