O café aonde vou é um lugar onde passa muita gente, com a paragem ao lado, é um reboliço de entra e sai o dia todo. Mas entre os autocarros há momentos sossegados, a pulsação baixa, o ar cai sobre as mesas como um napperon, é uma sala preparada para um festejo inesperado. Nestas alturas, entram pessoas com o hábito de aqui vir, senão todos os dias, pelo menos com alguma regularidade. O acaso benigno de as ver mais do que uma vez torna o espaço mais afeito, e isso é uma coisa antiga e simples que, apesar de não estar sempre presente, é uma porta aberta num lugar abafado. Hoje, numa destas suspensões da correria, entrou uma mulher que vi pela segunda vez, o que não teria nada de invulgar não fosse alguém que, da primeira vez que a vi, me levantou uma questão como uma lebre escondida numa moita, uma dessas questões que as crianças põem com a perspicácia de quem desmonta uma armadilha. De onde a conhecia? Tinha a certeza que já a vira outrora, uma certeza turva, mas uma certeza. Com uma face mansa, sem brilho aparente, pele cor de algodão desbotado, um creme rosado que se ajusta sem grande contraste ao cinza-escuro do cabelo, cabelo longo e revolto como o mar nas enseadas da serra, enrolado na roda do tempo parecia crescer sem fim à vista. Está sobre a cadeira como uma construção que começou pelo telhado e do seu cimo continua a florescer. Sentada na outra ponta do café, tem no rosto o sossego de quem se escapou de um labirinto. Será isso o que reconheço nesta mulher que estou certo de já ter visto? O contentamento acanhado, de quem olha pela janela e não tem de virar à esquerda nem à direita, mas repara que o tempo vai mudar e se alegra com a camisa azul que passa por cima do telhado.
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