Alguma coisa se entornou sobre a cidade, talvez um frasco de ambrósia deixado ao abandono numa nuvem, dois anjos mais tagarelas, conversa vai, conversa vem, deram-lhe um pontapé. As ruas estão arrepiadas e alegres, lembram uma mulher que abriu uma gaveta velha e descobriu um anel que pensava perdido, enfiou-o no dedo e teve um arroubo semelhante à altura em que lho ofereceram. O calor pôs a cabeça de fora e os braços nus passam a baloiçar suspensos sobre a casca de ovo do empedrado. Vieram todos para a rua, enchem os bancos, juntam-se em grupos nos cruzamentos. A rua faz o que fazia quando acolhia tanta gente, equilibra os gestos exagerados com sombras lilás que se alongam em retângulos irregulares e adoça os risos mais escancarados com o rumor dos pássaros e dos motores. Cabelos longos e vestidos de algodão andam de um lado para o outro tocados de improviso pelo vento sem se preocupar com a afinação. O centro é uma casa de portadas abertas onde a luz corre indiferente a quem anda mais apressado. Os rapazes das entregas pedem licença para chegar às lojas, na esplanada um grupo de mulheres fala do tempo com tristeza na voz e alegria nas pernas, onde estava tanta gente antes do sol esticar os dedos sobre os telhados? Os velhos andam em bando como os cães, sentam-se à sombra de um plátano a comentar os crimes do dia. Ainda é cedo para perfumes tão fortes, o bafio esconde-se nos cantos como um tesouro, os olhos escapam-se para as janelas onde o calor não chega. Estou num café onde nunca venho, a falsificar costumes, a desabotoar rotinas que não tenho.
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