A manhã passou por mim com a força imberbe de não compreender nada, de quem se está nas tintas para o estômago enrolado que me acompanha desde ontem, com a força de quem nunca vai prestar atenção a merda nenhuma que lhe ponha à frente. Para além de umas cintilações de cobre de uns cabelos empastados, o sol avulta o fedor dos esgotos, ao ponto de pensar que quem me acompanhava soltava gases de um modo descontrolado. Nada disto incomoda a passerelle de rostos luminosos, das pernas pálidas tatuadas numa cerâmica rosa, passam num ritmo cego, num desejo boto, a ouvir os próprios passos que as conduzem para onde não querem. A manhã teve o único talento de não querer saber, de continuar no obstinado sonho químico, soberba, indiferente à conversa sobre Nápoles, onde talvez nunca vá comer uma pizza barata nem levar uma chinada. Fiquei, contudo, a matutar sobre a fluidez das ideias que nos apanha os tornozelos e desaparece, com o prazer doentio de uma ama que esconde o úbere húmido, açucarado pelo leite, da boca soluçante dos pequenos.
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