Estava de olhos fechados quando um tremor irregular, um jacto pontilhado, se fez ouvir, demasiado rápido para ser um rato na parede, um pequeno trinar, soou três vezes e calou-se. Voltei a fechar os olhos, preparava-me para desatar os sentidos quando, de novo, uma pequena rajada me fez voltar ao de cima, passado pouco tempo, outra, o ritmo aumentava como um atleta que se entusiasma. Com os olhos fechados pensei que o conflito armado estava às portas da cidade, a minha mãe diz que a virgem nos protege, mas o estatuto de excepção é uma superstição neurótica, apenas o acaso nos mantém a salvo da estupidez. Estava desperto, as rajadas pareciam-me agora um brinquedo rouco, um matraquear surdo e rápido, o zumbido de um mosquito metálico que tinha por única função não me deixar pregar olho. Levantei-me, da janela vi as mãos brancas e arroxeadas que empurravam a flanela para o mastigar da agulha, a máquina tinha um ritmo certo, um transe conquistado com perícia ao qual se entregava sem esforço aparente. Não posso fechar a janela com o calor, deixei-me ficar deitado enquanto o correr da agulha me tatuava, antes de perder o juízo, lembrei-me do senhor Ducasse, certamente morava por cima de uma costureira, uma bela costureira com a qual se encontrou num dia de chuva, mas isso é outra superstição. O encontro fortuito da máquina de costura com um guarda-chuva é belo, mas sou eu quem está na mesa de dissecação.
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