20 de abr. de 2023

 

Em casa tudo quieto, as janelas abertas, a rua move-se devagar como um bicho entorpecido. Abril está aclarado, demasiado maduro para um mês de obrigações irrevogáveis. Corro as persianas para guardar o ar fresco da noite, lá fora o dia está marcado a ferro, os frutos passam de verdes a fermentados. O verão aflora-me o nariz, um cabelo fulvo que emana um cheiro bravio, um torrado campestre. Tenho saudades de fumar à janela, agora, se fico uns segundos sobre o parapeito, fico envenenado com a suspeita de codrilhar, vale-me a monotonia da rua e estarem todos no trabalho. Se por vezes alucino algum detalhe da vida dos outros, é apenas como um ilusionista que procura usar a ociosidade, esse tóxico excitante, para dilatar as suas fronteiras. Ontem deitei-me com o que sobrou de uma conversa, fechei os estores, vi um vestido verde, baloiçava na aragem morna, estava tão cansado que o deixei cair na memória como um decalque, o sono soltou-se inesperado, uma madeixa do longo cabelo que adormece os homens. Quando acordei fui à janela, vi o reboco descascado e o cheiro a ferrugem de um verão falso, não estou certo de ter visto o vestido verde que a noite azulava. Codrilhar é uma forma popular de quadrilha, se as velhas soubessem, andam armadas em salteadoras a pilhar a vida uns dos outros, vivem do que rapinam como a bruxa dos contos infantis. Eu roubo o que posso das ruas desidratadas, aprendo a viver com os recursos urbanos como os antigos lusos viviam da castanha e dos produtos florestais.

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