28 de ago. de 2022

 

Domingo de manhã é um território de ninguém no bairro onde moro. São-me mais próximas as ruas desertas com a obscuridade, a imprecisão deixa-me confiar de um modo risonho nas más interpretações, e não sinto amputado o que espero da cidade. As mesmas ruas quando o sol desponta a um domingo mostram a incompletude da dança que não se chegou a fazer, passar na avenida a esta hora assemelha-se a encontrar um estrato geológico novo depois de um deslizamento de terras e não conseguir distinguir o aparecimento do novo da presença do que ficou subterrado, talvez não seja isso, há um véu sobre os edifícios, para além do silêncio que se estende até uma hora mais tardia no dia do senhor, uma indolência atmosférica, como se a cidade se recompusesse de um gozo noturno e vagueasse pelos sonhos gasosos da embriaguez. Tinha escapado ao remoinho, ou melhor, tinha sido rejeitado, empurrado para esta moleza terrosa sem ferramentas para descobrir o que acontecera, o que vejo eu de um corpo que sonha? Ténues sinais de vida, a respiração escancarada de um sono pouco profundo, a transpiração, uma opacidade constrangedora. É um dia de langor, onde a inclinação ao mais fácil está inscrita nas pedras e nos corações dos homens, assim seja.

27 de ago. de 2022

 

A noite enlaçou-se na minha barba e não me deixou dormir, por descuido não travei os avanços do arbusto, ainda ontem era um musgo suave, agora é um monte de tojos secos e aguçados. Não penso com afinco no decorativo, confio que ela tenha alguma ordem e contenção, mas apesar da aparência não a trato por tu, sei que pertence a outro mundo, quase imortal, desmesurado, passa-me entre os dedos como um regato, dá-me vertigens não parar por nada nem por ninguém. Se lhe cabe alguma virtude é legar-me a tarefa do corte, de lhe impor um limite. De resto, só lhe faço caso se floresce ou se alguma saia se prende nas pontas. Como se eu não chegasse, tenho ainda de acalentar este lume. Não preguei olho por sua causa, a senhora da noite ficou com o manto preso no arame farpado.

24 de ago. de 2022

 

O dia carente de luz e o meu espírito amputado são siameses. O que me safou foi a minha preguiça, ela, que normalmente me deixa pendurado em divisões empoeiradas, levou-me a conformar-me à invisibilidade circundante, e dei por mim entusiasmado com um dia pardacento que ia passar entre turistas excitados, na prática, lamento não os conseguir observar com atenção e perder a maioria do tempo a tentar dar trocos certos, acredito que aprenderia qualquer coisa, teria de andar ao seu lado, pois passam com o dedo no gatilho. Nos meus sonhos a porta giratória do café começou a rodar sozinha e as pessoas saiam disparadas para o meio da rua, iam-se amontoando até fazer uma barreira que dividia a rua. Parece-me que não me tenho sentado com ninguém o suficiente para o corpo ganhar o assombro que os corpos ganham quando estão quietos à minha frente. A disparidade tomou as rédeas dos meus dias, e entre o excesso de gente no trabalho e a míngua ao serão, onde nem a mim me encontro, fica a paz traiçoeira da boca fechada, ou como escreveu Lichtenberg "o seu tinteiro era um autêntico templo de Jano; quando fechado, a paz reinava no mundo inteiro."

7 de ago. de 2022

 

Volto ao parque como a um lugar que me acolheu, podia começar assim, mas não é por isso que aqui venho, um cigarro e os olhos fechados chegavam para esse fim; a maioria das vezes que volto a um lugar que me acolheu de braços abertos é para fechar os olhos, se me sento neste banco na margem do lago como se de um barco se tratasse, é porque espero que alguém se sente e reme numa direção qualquer. Tudo é um esboço do que pode ser, os miúdos amigam-se com o entusiasmo do jogo entre-dentes, eu acanho-me com a monotonia do gesto acabado. O céu está pálido e baço como a espuma de um galão, as casas atrás das árvores parecem feitas de cartão, saídas de um pensamento que se põe de pé para que passemos por ele, atrás dos plátanos semeados por alguém com outro pensamento em mãos. Passam vultos ao longe entre os arbustos, onde se ocultariam as engrenagens de uma tal animação? O ócio adoça o largo como um fruto maduro num dia de sol. Saber que os homens passam aqui com um fim diverso do salário humaniza-me a ignorância.

2 de ago. de 2022

 

Volto ao parque como a um lugar que me acolheu, podia começar assim, mas não é por isso que aqui venho, um cigarro e os olhos fechados chegavam para esse fim; a maioria das vezes que volto a um lugar que me acolheu de braços abertos é para fechar os olhos, se me sento neste banco na margem do lago como se de um barco se tratasse, é porque espero que alguém se sente e reme numa direção qualquer. Tudo é um esboço do que pode ser, os miúdos amigam-se com o entusiasmo do jogo entre-dentes, eu acanho-me com a monotonia do gesto acabado. O céu está pálido e baço como a espuma de um galão, as casas atrás das árvores parecem feitas de cartão, saídas de um pensamento que se põe de pé para que passemos por ele, atrás dos plátanos semeados por alguém com outro pensamento em mãos. Passam vultos ao longe entre os arbustos, onde se ocultariam as engrenagens de uma tal animação? O ócio adoça o largo como um fruto maduro num dia de sol. Saber que os homens passam aqui com um fim diverso do salário humaniza-me a ignorância.