15 de set. de 2022

 

Os olhos perdidos debaixo de uma testa alta como uma duna da qual brota um feno louro que lhe cobre as costas, atendeu-me com um sorriso acanhado, os lábios pareciam picados por uma abelha, excessivos, requeriam esforço para conseguir dar atenção a outra coisa, o nariz com a forma curva e longa de uma foice dividia o rosto redondo deixando as maçãs isoladas a apontar para direcções opostas, uma face ondulada e difícil de abarcar de um só golpe. Tem um belo crânio, largo e pesado para o pequeno pescoço que o sustenta. Em torno a isto há a ressonância inoportuna da voz, esta, segura todos os elementos com uma dúvida flutuante, deixa-os frementes, assombrados. Se vejo uma face e me deslumbro com o seu semblante, suspeito sempre já a ter visto algures, uma primeira vez em que me passou despercebida, como se o encantamento dependesse sempre de um reconhecimento, a sedução de algo que se move entre o estranho e o familiar. À partida todos os rostos me são familiares, todos têm o mesmo ponto cego onde projecto o meu reconhecimento, do qual espero que me reconheçam, mas este "à partida" é tão distante como uma personagem de um romance lido na adolescência. Talvez não consiga evitar ver os rostos que me cativam rodeados por uma auréola narrativa, o que me deixa numa floresta onde posso perder o que aparece. Onde está a menina que me serviu café, cujo rosto parecia polvilhado de farinha? Tenho de tactear o véu que antecipa todos os encontros. A ambiguidade do que vejo ao longe não acontece também quando me aproximo? Uma mulher que surge ao fundo da rua parece-se tanto com o que imagino que me relaciono mais com a minha fantasia do que com o que vejo, é a minha fantasia o que vejo, por isso me aborreço entre coisas que descarto como irrelevantes, apenas quando ela se torna um cão de caça que parte à procura do que vê começo a ver.

10 de set. de 2022

 

A sombra é uma costureira experiente que alinha retalhos uns com os outros, um manto de contradições sobre o qual caminho despreocupado. Tivesse a sua habilidade e desenhava a fruta com o perfume das mãos da vendedora e a vendedora pela cor das suas maçãs, temperadas pela sombra do chapéu, unem-se num aroma que se espalha pela praça. Ando no lado sombrio, submerso no sossego cinza da calçada, como se de um espaço diverso se tratasse, os fregueses agitam-se ao sol com os braços longos como ramos caídos sobre a água. Desocupo-me como não fazia há muito no tapete efémero, encostado aos sons que correm pelos beirais, à claridade que se espalha nos caminhos abertos pelos pés e pela cabeça, caminhos que me levam a um lugar que se desacerta deste, que se acomoda por vezes, sem significados, um lugar que caí, que se despenha. A sombra dá-me a ilusão que se chegam a tocar, que as coisas estagnam por momentos, que sossegam a fuga que empreendem, mas uma sombra oscila entre um poço e um abrigo, tanto me engole como me protege, e a vendedora, que mergulha as frutas na luz quando as entrega, cobre o rosto com o escuro como quem não saí casa.

3 de set. de 2022

 

O ar frio é mais revigorante do que café, faz-me crer que os pensamentos ficam agudos e mais próximos os alvos que procuram, talvez o tiro com arco não sirva bem o propósito do que quero dizer, se soubesse bem o que quero dizer. Há certamente quem passeie pelas suas ideias de forma decidida, saltando de pedra em pedra sem questionar se é sólido o sítio onde põe os pés, mas serão suas as ideias? As que me vêm não sei de quem são, aparecem frágeis como um pano puído, tenho de as pincelar com cera e deixá-las ao ar, quando o grande luzeiro se apaga espero que alguma sombra se grave no rosto esburacado, volto a olhá-las de manhã, agarro num punhado delas e vejo se as posso enlaçar com outra coisa que apanhe com a mão esquerda, se não for tomado por pensamentos graves, esses levam-me para longe de onde fervilha o vivo. Aristóteles disse que a vida, se era exuberante no reino vegetal, explodia nos animais, nós, que os copiamos há milénios, cobrimo-los com lençóis molhados para que os estilhaços não nos atinjam a cara, habituámo-nos à temperatura, e hoje quando falamos de nos copiarmos uns aos outros é com a cara esborratada de carvão de quem tenta ver alguma coisa com a ajuda do negro.

2 de set. de 2022

 

Já chegava à porta do prédio quando reparei que ainda estava em casa caído sobre a napa viscosa do sofá. Surpreendido com a agilidade com que as pernas desceram as escadas, abri a porta orgulhosamente, mas assim que me encontrei na rua deixei-me a percorrer o passeio ao abandono e refugiei-me no que deu à costa da travessia noturna, tinha tido um sonho típico de uma qualquer angústia que não queria afrontar. Ao aproximar-me da estação a azáfama trouxe-me de volta à coisa andante que, agora junto a outras que se cruzavam com ela, parecia ter entrado num acordo mais justo. As variações a que estou sujeito fazem com que fique por vezes tão contente de me encontrar como a um amigo que não via há tempos. Haverá alguma medida entre o corpo de hoje desconjuntado no sofá e o que ontem se mantinha uno como uma centelha à beira-mar? Claro que este último era amparado pelo ar salubre e pelas manchas rosas que tingiam a areia de um perfume sobrenatural, um timbre salmonado que deixava o horizonte trémulo como uma corda de guitarra.