Os olhos perdidos debaixo de uma testa alta como uma duna da qual brota um feno louro que lhe cobre as costas, atendeu-me com um sorriso acanhado, os lábios pareciam picados por uma abelha, excessivos, requeriam esforço para conseguir dar atenção a outra coisa, o nariz com a forma curva e longa de uma foice dividia o rosto redondo deixando as maçãs isoladas a apontar para direcções opostas, uma face ondulada e difícil de abarcar de um só golpe. Tem um belo crânio, largo e pesado para o pequeno pescoço que o sustenta. Em torno a isto há a ressonância inoportuna da voz, esta, segura todos os elementos com uma dúvida flutuante, deixa-os frementes, assombrados. Se vejo uma face e me deslumbro com o seu semblante, suspeito sempre já a ter visto algures, uma primeira vez em que me passou despercebida, como se o encantamento dependesse sempre de um reconhecimento, a sedução de algo que se move entre o estranho e o familiar. À partida todos os rostos me são familiares, todos têm o mesmo ponto cego onde projecto o meu reconhecimento, do qual espero que me reconheçam, mas este "à partida" é tão distante como uma personagem de um romance lido na adolescência. Talvez não consiga evitar ver os rostos que me cativam rodeados por uma auréola narrativa, o que me deixa numa floresta onde posso perder o que aparece. Onde está a menina que me serviu café, cujo rosto parecia polvilhado de farinha? Tenho de tactear o véu que antecipa todos os encontros. A ambiguidade do que vejo ao longe não acontece também quando me aproximo? Uma mulher que surge ao fundo da rua parece-se tanto com o que imagino que me relaciono mais com a minha fantasia do que com o que vejo, é a minha fantasia o que vejo, por isso me aborreço entre coisas que descarto como irrelevantes, apenas quando ela se torna um cão de caça que parte à procura do que vê começo a ver.