Chego ao café sempre meia hora antes das lojas abrirem. São duas vidas diversas, a quietude quase estática, onde os movimentos parecem ser apenas a preparação de um palco, e o frenesi do comércio que irrompe como se gerado do nada, cheio de desastre e tribulação. Anteriormente tudo é pensamento coagulado, ao ponto de passar por algo natural, da calçada aos vasos ornamentais, mesmo o manto cinza é como um tecto artificial. Depois surgem as faces, nas quais o enigma sussurra constantemente. Faces que mostram sempre, principalmente quando escondem, a liberdade que abdicam forçada ou voluntariamente. O pequeno sorriso que cobiça frente à conspiração inocente que o seduz, é um resumo prosaico de uma história delicada. Se o sol alegra a vendedora de meias, cosendo novas esperanças ao seu horizonte cinzento, o seu corpo alheia-se do crédito triste e revela um excesso impossível de delimitar. Tudo sobra, mas para conter a desmesura tem de vender três pares pelo preço de um.
31 de jan. de 2022
29 de jan. de 2022
O silêncio no fim-de-semana de manhã é por vezes de tal ordem, que vou directo da cama à janela. A rua deserta dá-me a sensação de ser a última pessoa no mundo, como se tivesse ficado esquecido depois de uma festa. Se me desviar do sentimento piedoso por mim próprio, que me deixa face a uma parede com uma janela nas minhas costas, talvez consiga ver alguma coisa. O primeiro impulso é procurar alguém que com a sua presença me desminta o que sinto. Mas desconfio do instintivo, e o que me ia confortar na figura do outro ia também fazer desaparecer o assombro de estar só. Certo é que estamos sozinhos juntos. Deste modo o outro surge-me do lado de lá de um desfiladeiro. Sem a mão paternal que nos leva aos dois a passear, revisito a sensação que tive, e vejo agora que quem tinha desaparecido era eu.
Erwin Wurm, One Minute Sculpture - Astronomical Purpose.
28 de jan. de 2022
Quando a meio da noite tento descobrir o caminho de volta para o sonho, procuro uma porta entreaberta através de uma sequência de imagens, uma situação ou mesmo um objecto. Se o conseguir enquadrar no ambiente certo pode ser que caía da torre, onde não sei o que vigio, para o oceano onde se torna explícito que é outro quem narra a história. Se não tenho nenhum indício, normalmente é uma situação erótica que me vem espontaneamente ao espírito, e me segura no limbo onde não sei se durmo. A insistência da sexualidade na fronteira do sono deve ter um alcance que me escapa. O modo fragmentado como me abandono a uma parte do corpo feminino, despojada aparentemente de relação com o sujeito desse corpo (mesmo que a pessoa seja invocada como presença é uma relação parcial de carácter quase líquido). Um seio branco e quente como uma pomba adormecida, os caracóis púbicos junto à virilha rosada. É no detalhe particular, quase impessoal, que tacteio uma entrada secreta para o universo do sonho, como se se tratasse de uma escrita, a evocação de um texto, de um véu que esconde a face que nunca poderei ver.