Quando a meio da noite tento descobrir o caminho de volta para o sonho, procuro uma porta entreaberta através de uma sequência de imagens, uma situação ou mesmo um objecto. Se o conseguir enquadrar no ambiente certo pode ser que caía da torre, onde não sei o que vigio, para o oceano onde se torna explícito que é outro quem narra a história. Se não tenho nenhum indício, normalmente é uma situação erótica que me vem espontaneamente ao espírito, e me segura no limbo onde não sei se durmo. A insistência da sexualidade na fronteira do sono deve ter um alcance que me escapa. O modo fragmentado como me abandono a uma parte do corpo feminino, despojada aparentemente de relação com o sujeito desse corpo (mesmo que a pessoa seja invocada como presença é uma relação parcial de carácter quase líquido). Um seio branco e quente como uma pomba adormecida, os caracóis púbicos junto à virilha rosada. É no detalhe particular, quase impessoal, que tacteio uma entrada secreta para o universo do sonho, como se se tratasse de uma escrita, a evocação de um texto, de um véu que esconde a face que nunca poderei ver.
28 de jan. de 2022
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