24 de out. de 2022

 

Os eucaliptos apontavam os céus, soldados de uma rude vegetação, pareciam um cinto de balas do outro lado da rua, assim os vejo agora quando me recordo da fileira de palitos acinzentados que se estendiam rua abaixo, na altura, por mais variações que houvesse, eram apenas um tremor, uma oscilação que cobria o silêncio, sem deixar perceber onde começava um e acabava o outro. Não atravessava a rua sem que um estado de exaltação se apoderasse de mim, a floresta, descrita como árida e pobre em vegetação, era um lugar onde se reuniam o silvar dos chicotes e o zumbido dos insectos. Um lugar ainda sem palavra que me seduzia como me seduz o desejo de percorrer o mundo de uma mulher cuja presença me incomoda. O que hoje não levo a sério, a troca de segredo por segredo, o que se desloca por canais aéreos num jogo de ecos e analogias, o que nasce de uma história mal contada e se junta ao pincelar das copas que fundem o que conheço com o que desconheço, era o modo de ser do que vivia nesse arvoredo. As ferramentas que tinha para o enfrentar vinham das fábulas que me contavam, fábulas que habitava de modo bravio, assim como o próprio eucaliptal, era um lugar onde ensaiava a minha relação com a lei, o contrário de um lugar sagrado, tudo me pedia que lhe tocasse, do outro lado da rua, a casa estava sobre a tutela da mãe, era ela quem me mostrava o que podia ou não fazer, no eucaliptal era-me permitido, na verdade, era por não saber o que aí me era permitido que essa terra parecia habitada por fantasmas, fantasmas que se estendiam pelos lugares vazios, talvez enviados por ela para me travar as iniciativas bárbaras. Do lado de cá do muro, uma palmeira, exuberante, altiva e orgulhosa, a rua tinha o seu nome. A casa era uma vivenda branca, grande e deselegante como a maioria das vivendas brancas.

22 de out. de 2022

 

A mudez não se resolve com artimanhas e escapatórias de estalar de dedos, quando aparece é como a humidade num cigarro, entranha-se pelas fibras secas e disponíveis até se unirem num marasmo inerte que afugenta qualquer espécie de ignição. Dentro de um aquário, lento e caprichoso, o dia nasce maculado de repetições, através dos vidros por lavar a luz cremosa enche o quarto sem tirar as coisas do sossego, é uma luz favorável à coexistência de coisas contraditórias, pequenos organismos que desaparecem sob a cegueira do fulgor, talvez seja essa a minha porta de saída. Não quero que seja o sono que me rapte ao torpor com que acordei, tento entrever algum desses seres que aparecem na tepidez da paixão, de certo modo é como se despisse um fato que me impuseram e pudesse experimentar a roupa que ficou esquecida no armário. Chego à livraria com a calma de quem anda dois passos atrás de si, vender livros é um negócio obsceno, quanto menos escrevo mais a língua se enrola em lirismos desnecessários, o avarento que vive debaixo da asa dos leitores abre os braços quando aqui entra, lambe lombadas com os olhos acesos e alucinados, dispara uns sobrenomes que o cobrem de veludo e sai disparado pela outra porta, se há lugar onde o fetiche mata é este. Abro a caixa, o dinheiro cola-se às mãos, finjo que não o vejo, que me consigo livrar da sua espuma com uma lâmina como quem faz a barba, preferia não.

20 de out. de 2022

 

A porta por onde costumava passar estava fechada, sem nenhum aviso que indicasse a súbita mudança. Estive algum tempo sem aqui vir, mas sempre que vim passei sem grandes dificuldades, talvez algumas vezes tivesse que fazer mais força do que outras, no entanto, acabava sempre por ceder ao braço que se esticava. As portas separam os espaços do mesmo modo que as festividades cadenciam os anos, empurrava a porta sem sucesso quando este pensamento me caiu em mãos, pareceu-me absurdo e sem consequências de maior, apesar de tudo os anos passam quer as festividades aconteçam, quer não, quanto às portas; bem, uma porta fechada é um espaço amputado, é a ilusão de continuidade que se vê suspensa, isto se não a pudermos contornar, e esta ilusão não me deixa afundar na ideia de que estou encurralado numa caixa forrada de sonhos que não sei interpretar. Se soubesse que com a teimosia certa e uma boa dose de estoicismo a porta acabaria por ceder não lhe voltava as costas tão depressa, nada me garante que não me depare com outra porta fechada noutro sítio qualquer. Já não tenho o entusiasmo juvenil para abandonar um trabalho à primeira dificuldade, se tivesse continuado a passar aqui isto não teria acontecido, mas um trabalho noutro lugar levou-me a deixar este caminho ao abandono, poderia ter falado com alguém para que aqui passasse enquanto não voltava à rotina, mas nunca me passou pela cabeça que a porta deixasse de abrir.

1 de out. de 2022

 Passei a noite a palmilhar a cidade, acordei a pensar que há tempos que não faço uma caminhada. Quando estou quieto desoriento-me, se me ponho a andar o pão fermenta a outra velocidade. Há quase um ano que comecei em simultâneo a escrever e a andar com maior regularidade, a cidade que pensava conhecer mostrou-se esguia e difícil de agarrar. Não é só o distante que se esconde quando me perco em rotinas apertadas, tudo parte em debandada. A vegetação da avenida insiste como um lapso em dizer o que não oiço, o chão é onde encontro o que se perde, é com o que se perde que desenho o caminho que vou tomar. O chilrear dos pássaros faz um tapete onde as raparigas se encostam quando passam, o eco dos tacões enleia-se no cheiro agudo do alecrim e o corpo, torto e desabituado do andar, tende a encontrar posição onde isto aconteça sem o incomodar.