A mudez não se resolve com artimanhas e escapatórias de estalar de dedos, quando aparece é como a humidade num cigarro, entranha-se pelas fibras secas e disponíveis até se unirem num marasmo inerte que afugenta qualquer espécie de ignição. Dentro de um aquário, lento e caprichoso, o dia nasce maculado de repetições, através dos vidros por lavar a luz cremosa enche o quarto sem tirar as coisas do sossego, é uma luz favorável à coexistência de coisas contraditórias, pequenos organismos que desaparecem sob a cegueira do fulgor, talvez seja essa a minha porta de saída. Não quero que seja o sono que me rapte ao torpor com que acordei, tento entrever algum desses seres que aparecem na tepidez da paixão, de certo modo é como se despisse um fato que me impuseram e pudesse experimentar a roupa que ficou esquecida no armário. Chego à livraria com a calma de quem anda dois passos atrás de si, vender livros é um negócio obsceno, quanto menos escrevo mais a língua se enrola em lirismos desnecessários, o avarento que vive debaixo da asa dos leitores abre os braços quando aqui entra, lambe lombadas com os olhos acesos e alucinados, dispara uns sobrenomes que o cobrem de veludo e sai disparado pela outra porta, se há lugar onde o fetiche mata é este. Abro a caixa, o dinheiro cola-se às mãos, finjo que não o vejo, que me consigo livrar da sua espuma com uma lâmina como quem faz a barba, preferia não.
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