20 de out. de 2022

 

A porta por onde costumava passar estava fechada, sem nenhum aviso que indicasse a súbita mudança. Estive algum tempo sem aqui vir, mas sempre que vim passei sem grandes dificuldades, talvez algumas vezes tivesse que fazer mais força do que outras, no entanto, acabava sempre por ceder ao braço que se esticava. As portas separam os espaços do mesmo modo que as festividades cadenciam os anos, empurrava a porta sem sucesso quando este pensamento me caiu em mãos, pareceu-me absurdo e sem consequências de maior, apesar de tudo os anos passam quer as festividades aconteçam, quer não, quanto às portas; bem, uma porta fechada é um espaço amputado, é a ilusão de continuidade que se vê suspensa, isto se não a pudermos contornar, e esta ilusão não me deixa afundar na ideia de que estou encurralado numa caixa forrada de sonhos que não sei interpretar. Se soubesse que com a teimosia certa e uma boa dose de estoicismo a porta acabaria por ceder não lhe voltava as costas tão depressa, nada me garante que não me depare com outra porta fechada noutro sítio qualquer. Já não tenho o entusiasmo juvenil para abandonar um trabalho à primeira dificuldade, se tivesse continuado a passar aqui isto não teria acontecido, mas um trabalho noutro lugar levou-me a deixar este caminho ao abandono, poderia ter falado com alguém para que aqui passasse enquanto não voltava à rotina, mas nunca me passou pela cabeça que a porta deixasse de abrir.

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